O endividamento dos produtores rurais brasileiros alcançou patamares alarmantes em 2026, reacendendo críticas ao governo federal. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) afirma que o setor vive “um momento de ajuste doloroso” e que a falta de políticas consistentes de crédito e seguro rural agravou a crise.
“O produtor não deixa de pagar porque quer, mas porque não tem condições”, disse João Martins, presidente da CNA. Ele destacou que os custos de produção dispararam e que os programas de apoio foram reduzidos pelo governo, deixando agricultores sem alternativas.
O crédito rural, tradicionalmente subsidiado, perdeu força nos últimos anos. Com juros elevados e menos linhas acessíveis, muitos produtores recorreram a financiamentos caros. “O governo falhou em garantir crédito acessível, e agora o campo paga a conta”, criticou a economista Fernanda Schwantes, assessora técnica da CNA.
Outro ponto de desgaste é o seguro rural. O orçamento do Programa de Subvenção ao Seguro Rural (PSR) foi de apenas R$ 1 bilhão em 2025, quando especialistas apontavam necessidade de até R$ 10 bilhões anuais. “Sem seguro, o produtor fica exposto a riscos climáticos que podem destruir sua safra”, afirmou Schwantes.
A resposta oficial tem sido considerada insuficiente. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, declarou que “o governo está trabalhando para renegociar dívidas e ampliar o crédito”, mas representantes do setor afirmam que as medidas não chegam na velocidade necessária. “O discurso é bonito, mas a prática é lenta e burocrática”, criticou Martins.
Especialistas alertam que a omissão pode ter efeitos graves. O agronegócio responde por mais de 25% do PIB brasileiro e é responsável por grande parte das exportações. Uma crise de crédito no setor pode afetar preços internos e comprometer a balança comercial. “Não é calote, é sobrevivência”, resumiu Martins.
A CNA apresentou ao Congresso a Agenda Legislativa do Agro 2026, com cem projetos que buscam aliviar o endividamento e ampliar o acesso ao crédito. Mas, segundo lideranças do setor, sem apoio firme do governo federal, as propostas correm risco de se tornar apenas promessas. “O campo não pode esperar indefinidamente por Brasília”, concluiu Schwantes.
Fontes: CNA, Ministério da Agricultura, Valor Econômico, Agência Brasil.